ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - Com a eleição caminhando para um desfecho já no primeiro turno, Dilma Rousseff precisa explicitar o que pretende fazer no seu governo e se irá ou não implementar o tal "projeto político" do PT alardeado por José Dirceu.
A campanha de Dilma entregou ao TSE um programa "hard" pela manhã, se arrependeu e trocou por um programa "light" à tarde. Seria um dos dois o projeto a que Dirceu se refere? Não se sabe, como não se sabe quais são as reais intenções de Dilma e até onde ela irá com a ame-aça de "controle social" da mídia.
Numa livre tradução, Dirceu disse que agora, sim, o PT vai mandar, fazer e acontecer. Deixou claro que Lula e sua imensa popularidade foram só um meio para chegar a um fim, como se esses oito anos fossem um aquecimento para a implantação do projeto real. Ok. Mas qual é ele? Por que ninguém pode falar? E por que nós não podemos saber?
Caso Dilma seja eleita, terá os ventos a favor na economia, o Congresso às suas ordens e poderá usar e abusar de seus poderes, baixando o centralismo democrático para (ou contra) a imprensa, a área militar e os costumes. Bem faria se deixasse bem claro quais são os seus planos.
Também não está claro como tratará a questão ética. Ou será que está? Sob Lula, houve quatro escândalos no coração do poder: depois de Waldomiro achacando bicheiro, o primeiro ministro foi parar no STF como "chefe de quadrilha", a segunda patrocinou dossiê contra ex-presidente e a terceira montou um time caseiro de craques em cobrar "taxa de êxito" de empresários.
O passado condena, sem haver compromissos para o futuro. Qual será o padrão ético do novo governo? O que o PT na oposição pregou contra Collor ou o que o PT no poder praticou com suas Erenices?
Após a eleição, bandeiras e programas vão para o lixo. A melhor pista do que vai sobrar é a de Dirceu: vem aí o "projeto político" do PT, seja lá o que isso signifique. Depois ninguém entende por que boa fatia do eleitorado está tão tiririca.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1909201004.htm
domingo, 19 de setembro de 2010
domingo, 12 de setembro de 2010
Foco nas exportações
EMÍLIO ODEBRECHT
O Brasil não pode continuar sendo um país campeão na exportação de commodities. É um título que não honra quem tem condições de ocupar uma posição relevante no comércio internacional.
A venda ao exterior de bens primários e semimanufaturados, como soja, grãos, sucos, minérios, café, carnes, couro, madeira e cacau, tem sido de enorme importância para a economia nacional. Mas precisamos avançar, nos capacitando para agregar valor ao que produzimos, o que exige uma qualificação que ainda não temos.
Os governos do presidente Fernando Henrique Cardoso e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficarão marcados pela concentração em algumas prioridades.
Fernando Henrique trabalhou, dentre outros assuntos, pela melhoria da educação e diminuição dos desníveis sociais, pela consolidação da democracia, pela modernização do Estado e pela estabilização da economia.
O presidente Lula deixará o seu mandato com o reconhecimento de que preservou os princípios e deu continuidade aos programas que asseguraram a estabilidade econômica, investiu com ênfase e obteve êxito na redução da desigualdade social.
Lula também realizou empreendimentos de base para o crescimento sustentável, particularmente na área de energia, estimulou a formação de empresas brasileiras com porte e competência de campeãs mundiais e restabeleceu e consolidou a confiança dos investidores, tanto nacionais quanto internacionais.
Ao próximo governo caberá, dentre inúmeros outros desafios, inserir o Brasil, definitivamente, no mercado global, confirmando nossa vocação de grande país exportador.
Esse esforço começa pelo incremento dos investimentos na educação, ampliando o ensino técnico, para que tenhamos gente qualificada, capaz de atender a padrões mundiais de competitividade.
É imperativo o fomento ao desenvolvimento tecnológico, que nos permitirá produzir mais e melhor que os concorrentes estrangeiros e ter aumento da participação de produtos de alta tecnologia em nossa pauta de exportações.
O tamanho deste desafio impõe também a ampliação e melhoria de nossa malha de estradas, ferrovias, portos e aeroportos, e é indispensável que alcancemos um nível de poupança interna que viabilize e sustente financiamentos de longo prazo, com taxas de juros equivalentes às do primeiro mundo.
Esse é, a meu ver, o eixo que deve orientar o rumo do próximo mandato presidencial para que o Brasil, tornando-se um país competitivo, dê um novo salto de qualidade no rumo do futuro.
EMÍLIO ODEBRECHT escreve aos domingos nesta coluna.
emilioodebrecht@uol.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209201006.htm
O Brasil não pode continuar sendo um país campeão na exportação de commodities. É um título que não honra quem tem condições de ocupar uma posição relevante no comércio internacional.
A venda ao exterior de bens primários e semimanufaturados, como soja, grãos, sucos, minérios, café, carnes, couro, madeira e cacau, tem sido de enorme importância para a economia nacional. Mas precisamos avançar, nos capacitando para agregar valor ao que produzimos, o que exige uma qualificação que ainda não temos.
Os governos do presidente Fernando Henrique Cardoso e do presidente Luiz Inácio Lula da Silva ficarão marcados pela concentração em algumas prioridades.
Fernando Henrique trabalhou, dentre outros assuntos, pela melhoria da educação e diminuição dos desníveis sociais, pela consolidação da democracia, pela modernização do Estado e pela estabilização da economia.
O presidente Lula deixará o seu mandato com o reconhecimento de que preservou os princípios e deu continuidade aos programas que asseguraram a estabilidade econômica, investiu com ênfase e obteve êxito na redução da desigualdade social.
Lula também realizou empreendimentos de base para o crescimento sustentável, particularmente na área de energia, estimulou a formação de empresas brasileiras com porte e competência de campeãs mundiais e restabeleceu e consolidou a confiança dos investidores, tanto nacionais quanto internacionais.
Ao próximo governo caberá, dentre inúmeros outros desafios, inserir o Brasil, definitivamente, no mercado global, confirmando nossa vocação de grande país exportador.
Esse esforço começa pelo incremento dos investimentos na educação, ampliando o ensino técnico, para que tenhamos gente qualificada, capaz de atender a padrões mundiais de competitividade.
É imperativo o fomento ao desenvolvimento tecnológico, que nos permitirá produzir mais e melhor que os concorrentes estrangeiros e ter aumento da participação de produtos de alta tecnologia em nossa pauta de exportações.
O tamanho deste desafio impõe também a ampliação e melhoria de nossa malha de estradas, ferrovias, portos e aeroportos, e é indispensável que alcancemos um nível de poupança interna que viabilize e sustente financiamentos de longo prazo, com taxas de juros equivalentes às do primeiro mundo.
Esse é, a meu ver, o eixo que deve orientar o rumo do próximo mandato presidencial para que o Brasil, tornando-se um país competitivo, dê um novo salto de qualidade no rumo do futuro.
EMÍLIO ODEBRECHT escreve aos domingos nesta coluna.
emilioodebrecht@uol.com.br
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209201006.htm
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editorial
Magistrado
CARLOS HEITOR CONY
RIO DE JANEIRO - Absoluta legalidade, mas discutível oportunidade. Espera-se de um presidente da República, entre outras qualidades necessárias, que ele seja realmente o primeiro magistrado da nação, com tudo o que implica a noção de um magistrado, ou seja, equidistância nas disputas internas e a consciência de que é presidente em igualdade de condições para todos os cidadãos do país.
Acontece que os presidentes, quando não podem continuar no poder por dispositivo constitucional ou por esvaziamento político, assumem como ponto de honra a obrigação de fazer o sucessor.
Em alguns casos engolem os seus sapos, como Juscelino Kubitschek engoliu a candidatura do marechal Lott e perdeu para Jânio Quadros. O próprio FHC não conseguiu emplacar o seu correligionário e passou a faixa presidencial para Lula. Coisas.
Não se pode negar a um político, mesmo na condição de presidente, o direito de ter o seu partido, o seu candidato, o interesse na continuação administrativa de seu governo. Seria esse o caso de Lula. Como petista categorizado, apoiaria a companheira de partido e de governo. Acontece que o apoio de Lula a Dilma transcendeu ao simples apoio político e passou a ser eminentemente eleitoral.
Inclusive entrando nas brigas e nas fofocas da campanha. Com sua retumbante taxa de aprovação popular, ele se sente à vontade para, nos palanques e na televisão, na condição de simples cidadão, não apenas exaltar as qualidades de sua candidata mas entrar na briga de foice da campanha, como se fosse um cabo eleitoral sem outro compromisso que não o da vitória acima de tudo.
Acho que ganhará mais uma vez a disputa em que se meteu. Mas estranho e lamento sua intervenção espalhafatosa na atual campanha eleitoral.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209201005.htm
RIO DE JANEIRO - Absoluta legalidade, mas discutível oportunidade. Espera-se de um presidente da República, entre outras qualidades necessárias, que ele seja realmente o primeiro magistrado da nação, com tudo o que implica a noção de um magistrado, ou seja, equidistância nas disputas internas e a consciência de que é presidente em igualdade de condições para todos os cidadãos do país.
Acontece que os presidentes, quando não podem continuar no poder por dispositivo constitucional ou por esvaziamento político, assumem como ponto de honra a obrigação de fazer o sucessor.
Em alguns casos engolem os seus sapos, como Juscelino Kubitschek engoliu a candidatura do marechal Lott e perdeu para Jânio Quadros. O próprio FHC não conseguiu emplacar o seu correligionário e passou a faixa presidencial para Lula. Coisas.
Não se pode negar a um político, mesmo na condição de presidente, o direito de ter o seu partido, o seu candidato, o interesse na continuação administrativa de seu governo. Seria esse o caso de Lula. Como petista categorizado, apoiaria a companheira de partido e de governo. Acontece que o apoio de Lula a Dilma transcendeu ao simples apoio político e passou a ser eminentemente eleitoral.
Inclusive entrando nas brigas e nas fofocas da campanha. Com sua retumbante taxa de aprovação popular, ele se sente à vontade para, nos palanques e na televisão, na condição de simples cidadão, não apenas exaltar as qualidades de sua candidata mas entrar na briga de foice da campanha, como se fosse um cabo eleitoral sem outro compromisso que não o da vitória acima de tudo.
Acho que ganhará mais uma vez a disputa em que se meteu. Mas estranho e lamento sua intervenção espalhafatosa na atual campanha eleitoral.
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editorial
Xenofobia na França
Com a popularidade em queda devido a uma controvertida proposta de reforma da Previdência, a um escândalo de financiamento de campanha e à dificuldade de reerguer o país da crise econômica, o presidente Nicolas Sarkozy lançou mão de uma série de iniciativas populistas e xenófobas para ganhar apoio do cada vez mais conservador eleitorado francês.
De maneira ruidosa, o governo acelerou um processo de "expulsão voluntária" de ciganos -mediante pagamentos de 100 a 300- após ligá-los a uma escalada de violência contra policiais.
Em projeto de lei a ser submetido à Assembleia Nacional no próximo dia 27 deste mês, Sarkozy proporá que estrangeiros naturalizados percam a cidadania francesa caso cometam crimes contra agentes da polícia.
Essas iniciativas se somam à lei, à espera da aprovação do Senado, que proibirá o uso em público da burca, a vestimenta islâmica que cobre o corpo das mulheres.
A ofensiva de Sarkozy encontra eco no eleitorado -79% dos franceses apoiam a expulsão dos ciganos e 80% concordam com a proposta de cassar a nacionalidade.
Indiferentes aos direitos dos estrangeiros que vivem no país, os franceses e seu governo se sensibilizam com a situação da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada a morrer por apedrejamento em sentença por ora suspensa. A primeira-dama Carla Bruni se manifestou contra a crueldade da pena imposta a Sakineh, mas seu "radicalismo chique" não foi ao ponto de levá-la a discordar das iniciativas xenófobas do marido.
A França não está só. A discriminação é plataforma de governo também na Itália, onde o premiê Silvio Berlusconi promove leis para criminalizar a imigração ilegal, e na Suíça, que proibiu a construção de minaretes islâmicos.
A história já mostrou que a exploração populista do nacionalismo xenófobo pode trazer consequências desastrosas para os países que trilham esse caminho.
http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1209201002.htm
De maneira ruidosa, o governo acelerou um processo de "expulsão voluntária" de ciganos -mediante pagamentos de 100 a 300- após ligá-los a uma escalada de violência contra policiais.
Em projeto de lei a ser submetido à Assembleia Nacional no próximo dia 27 deste mês, Sarkozy proporá que estrangeiros naturalizados percam a cidadania francesa caso cometam crimes contra agentes da polícia.
Essas iniciativas se somam à lei, à espera da aprovação do Senado, que proibirá o uso em público da burca, a vestimenta islâmica que cobre o corpo das mulheres.
A ofensiva de Sarkozy encontra eco no eleitorado -79% dos franceses apoiam a expulsão dos ciganos e 80% concordam com a proposta de cassar a nacionalidade.
Indiferentes aos direitos dos estrangeiros que vivem no país, os franceses e seu governo se sensibilizam com a situação da iraniana Sakineh Ashtiani, condenada a morrer por apedrejamento em sentença por ora suspensa. A primeira-dama Carla Bruni se manifestou contra a crueldade da pena imposta a Sakineh, mas seu "radicalismo chique" não foi ao ponto de levá-la a discordar das iniciativas xenófobas do marido.
A França não está só. A discriminação é plataforma de governo também na Itália, onde o premiê Silvio Berlusconi promove leis para criminalizar a imigração ilegal, e na Suíça, que proibiu a construção de minaretes islâmicos.
A história já mostrou que a exploração populista do nacionalismo xenófobo pode trazer consequências desastrosas para os países que trilham esse caminho.
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