ELIANE CANTANHÊDE
BRASÍLIA - Serra fez uma aposta arriscada ao empurrar até o último minuto o lançamento de sua candidatura à Presidência, para desespero e/ou irritação de tucanos, demos e do pessoal do PPS. Mas, aparentemente, sua estratégia estava correta. Foi na hora certa.
Depois do susto da oposição em fevereiro, quando Dilma encostou em Serra, com apenas quatro pontos de diferença, a sensação entre os serristas é a de que o pior já passou. Ao menos nesta fase da campanha.
Com tempestades, alagamentos e mortes em São Paulo e a consequente perda de pontos de Serra, Planalto, PT e Dilma imaginavam -na mesma proporção que PSDB e Serra temiam- um cruzamento nas curvas das pesquisas, com a petista avançando para a dianteira e o tucano escorregando para o segundo lugar em março ou abril.
Já imaginou o clima de enterro na festa de Serra se ele tivesse caído do patamar de 30% e ficado atrás da adversária? Mas isso não se concretizou, e o novo Datafolha de certa forma cristaliza a posição dos dois favoritos, que disputam pau a pau.
Mudanças, se houver, só depois da Copa e com o início da TV.
O pessoal da Dilma não deve estar dando pulos de alegria, mas a situação deve estar feia mesmo é numa outra seara: na de Ciro Gomes, que vai sendo sugado para a vaga de lanterninha, enquanto Marina Silva vai caminhando muito devagar, mas devagar e sempre.
Não erra, distingue-se dos opositores com elegância, provoca na hora certa. Deixa um rastro de possibilidades: no final, quem não engole Serra ou Dilma, mas não chegar a se encantar com o adversário direto de um ou da outra, sempre terá essa saída, digamos, honrosa.
Desde o início, parece claro que Marina não é para ganhar, mas para ocupar um vácuo, fazer bonito. E o que está cada vez mais evidente é que Ciro não tem vez: nem no governo, nem na oposição, nem no próprio partido. Quis ser tudo, corre o risco de não ser nada.
elianec@uol.com.br
domingo, 18 de abril de 2010
O Bric e a fraude
CLÓVIS ROSSI
SÃO PAULO - O grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) cobrou pela enésima vez, na cúpula de quinta-feira, em Brasília, a reforma da governança global. Justo, muito justo. Mas deveria começar pela própria sigla.
Trata-se de uma invenção da Goldman Sachs, essa empresa que agora está sendo investigada nos Estados Unidos por suspeita de fraude com um dos incontáveis mecanismos opacos de investimento que os corsários do sistema financeiro criaram nos últimos anos e foram em boa medida responsáveis pela crise global.
Em 2001, um economista do grupo decretou que os quatro países logo seriam potências mundiais. Não estou dizendo que é uma fraude, mas a própria Goldman Sachs, ao se defender agora, produziu um argumento que se aplica perfeitamente ao Bric.
Disse que "certamente" não sabia se o valor dos instrumentos que vendeu "iria subir ou cair".
O acrônimo Bric era também um instrumento vendido pela firma: destinava-se a projetar um futuro radioso para tais países de forma a atrair investimentos.
Tanto no Bric como no CDO (o instrumento usado na suposta fraude) aplica-se idêntico raciocínio: não dá para saber se o valor deles vai subir ou cair.
Não obstante, os governos dos quatro países "compraram" o instrumento e criaram o primeiro grupo de países que não tem origem político-diplomática, mas é fruto de uma invenção de um dos banqueiros de olhos azuis que o presidente de um dos quatro culpou pela crise.
Tudo somado, parece claro que, se é necessário reformular a governança global -e é-, um bom começo seria barrar a possibilidade de a pátria financeira decidir quem deve subir e quem deve cair (a Goldman Sachs está envolvida também na fraude que facilitou à Grécia endividar-se demais).
crossi@uol.com.br
SÃO PAULO - O grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) cobrou pela enésima vez, na cúpula de quinta-feira, em Brasília, a reforma da governança global. Justo, muito justo. Mas deveria começar pela própria sigla.
Trata-se de uma invenção da Goldman Sachs, essa empresa que agora está sendo investigada nos Estados Unidos por suspeita de fraude com um dos incontáveis mecanismos opacos de investimento que os corsários do sistema financeiro criaram nos últimos anos e foram em boa medida responsáveis pela crise global.
Em 2001, um economista do grupo decretou que os quatro países logo seriam potências mundiais. Não estou dizendo que é uma fraude, mas a própria Goldman Sachs, ao se defender agora, produziu um argumento que se aplica perfeitamente ao Bric.
Disse que "certamente" não sabia se o valor dos instrumentos que vendeu "iria subir ou cair".
O acrônimo Bric era também um instrumento vendido pela firma: destinava-se a projetar um futuro radioso para tais países de forma a atrair investimentos.
Tanto no Bric como no CDO (o instrumento usado na suposta fraude) aplica-se idêntico raciocínio: não dá para saber se o valor deles vai subir ou cair.
Não obstante, os governos dos quatro países "compraram" o instrumento e criaram o primeiro grupo de países que não tem origem político-diplomática, mas é fruto de uma invenção de um dos banqueiros de olhos azuis que o presidente de um dos quatro culpou pela crise.
Tudo somado, parece claro que, se é necessário reformular a governança global -e é-, um bom começo seria barrar a possibilidade de a pátria financeira decidir quem deve subir e quem deve cair (a Goldman Sachs está envolvida também na fraude que facilitou à Grécia endividar-se demais).
crossi@uol.com.br
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