quinta-feira, 22 de abril de 2010

Tudo menos isso

Contraponto

Tudo menos isso

Arthur Virgílio (PSDB-AM) dava entrevista a uma emissora de televisão quando uma excursão de estudantes vindos do município goiano de Cristalina irrompeu nos corredores do Senado. Diante da câmera, o tucano deixou uma resposta pela metade para brincar com as crianças:
-Vocês são jornalistas ou senadores?
Um menino mais atirado respondeu:
-Eu sou presidente!
-Ah! Então você é José Sarney- devolveu Virgílio.
O menino encerrou o papo:
-O do bigode? Deus me livre!

Piratas e conquistadores

ALDO PEREIRA

Direito autoral deveria constituir não propriedade, mas apenas licença de usufruto econômico exclusivo por certo prazo

NO SÉCULO 16 , países europeus que exploravam riquezas da América reprimiam com rigor a ação de piratas baseados em ilhas e costas continentais do Caribe: execução sumária ou condenação à forca.
À primeira vista, história de mocinhos e bandidos -ou seria de bandidos e bandidos?
Logo após ter descoberto o que supunha ser a Índia, Cristóvão Colombo (1451-1506) estabeleceu modelo de conduta para "los conquistadores": tortura sistemática de nativos para obter deles "segredos" de minas e garimpos de ouro, bem como para escravizá-los na extração e refino do minério. A recalcitrantes, espada civilizadora finamente forjada em Toledo.
De sua parte, a Marinha britânica, ocupada então com tráfico de escravos africanos, comissionou "privateers" (navios corsários) para pirataria seletiva contra galeões espanhóis carregados desse ouro.
Frances Drake (1540-1596) e Henry Morgan (1635-1688), célebres corsários, receberiam pela patriótica missão o título honorífico de "sir".
A distinção entre piratas, conquistadores e corsários continua ambígua. Sem explicitar nomes, o principal executivo da UMG (Universal Music Group) vocifera contra engenhocas do tipo iPod: "Repositórios de música roubada!".
Também se têm visto e ouvido na mídia proclamações de que baixar, copiar ou comprar músicas e programas sem pagar royalties é "pirataria".
Com a forca fora de moda, detentores de "propriedade intelectual" reclamam ao menos cadeia para "piratas".
"Propriedade intelectual" é campo de disputa em que convergem três interesses legítimos e interdependentes, mas conflitantes: 1) o dos autores, sem os quais não teríamos inovação e avanço na cultura; 2) o de firmas como editoras, gravadoras e programadoras, que assumem riscos lotéricos de produção, distribuição e promoção (em média, dos mais de 40 livros que a Random House edita por semana, 35 dão prejuízo ou lucro zero); e 3) o direito público à liberdade de expressão, ao saber e ao cultivo do espírito pela arte.
Sem esse terceiro direito, a vida cultural estagnaria, porque se realimenta do que ela própria produz. Nenhuma criação é absolutamente original, mas produto da tradição cultural do meio em que o autor se forma.
Por isso, direito autoral deveria constituir não propriedade, mas apenas licença de usufruto econômico exclusivo durante certo prazo, como a concedida a patentes. Em criações de pessoa física, tal licença poderia ser vitalícia, embora não hereditária.
O que tem ocorrido, porém, é progressiva usurpação do direito público em favor da "propriedade intelectual", sobretudo corporativa. Isto é, acumulação de privilégios desfrutados por cartéis e outros grupos que em geral os têm obtido pelo suborno sistemático de legisladores e burocratas, prática mais elegantemente referida como lobby ("antessala").
No reinado de Pedro 1º, toda obra literária caía em domínio público dez anos após a publicação. O regime republicano dilatou o privilégio para 50 anos contados do 1º de janeiro subsequente à morte do autor (Lei Medeiros e Albuquerque, nº 496, de 1898). Esse prazo é hoje de 70 anos.
Todas as mudanças legais introduzidas desde 1898 têm ampliado o direito individual e corporativo de exploração econômica das obras à custa de progressiva restrição do domínio público, isto é, em prejuízo da dimensão social da cultura.
A involução legal brasileira reflete a globalização dos mercados da "propriedade intelectual".
Acordos e convenções que conferem direito proprietário de corporações a criações culturais têm sido extorquidos a governantes covardes e/ ou venais do mundo subdesenvolvido, estratégia que se completa pelo citado suborno legislativo. Colonialismo por outros meios.
O abuso é mais nítido na exploração autoral póstuma, onde o Congresso americano, creia, tem-se mostrado ainda mais venal que o brasileiro. Segundo Lawrence Lessig, professor de direito da Universidade Stanford, à medida que o camundongo Mickey envelhece e se arrisca a cair em domínio público, o lobby da Walt Disney obtém mais alguns anos de sobrevida para o respectivo "copyright".
Em 1998, o Congresso dos EUA estendeu a proteção póstuma a 95 anos: no caso de Mickey, até 2061. Lessig enumera 11 extensões semelhantes concedidas nos últimos 40 anos em favor da indústria de som e imagem.
Nesse drama, decerto lhe seria difícil escolher entre o papel de conquistador e o de pirata. Resigne-se, então, ao do submisso e espoliado nativo.
ALDO PEREIRA , 77, é ex-editorialista e colaborador especial da Folha .

E-mail: aldopereira.argumento@uol.com.br .

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Na maior parte do mundo, um celular é o bastante

Aparelho está cada vez mais difundido nos países em desenvolvimento

Por ANAND GIRIDHARADAS

E se o iPad não for o próximo grande acontecimento global? E se o próximo grande acontecimento for pequeno, barato e não americano?
Os EUA entraram recentemente em um frenesi com o lançamento do iPad. Ao mesmo tempo, um futuro diferente parece estar se desenrolando em outras partes do mundo, na tela do telefone celular.
Em meio ao burburinho americano, o florescimento global das inovações no simples celular passou despercebido. Da Índia à Coreia do Norte e até ao Afeganistão, pessoas procuram trabalho usando mensagens de texto; contraem e concedem empréstimos e recebem seus salários por meio de seus celulares e usam os aparelhinhos como televisores e rádios.
E muitos fazem tudo isso gastando pouco. Na Índia, a Reliance Communications vende celulares por menos de US$ 25, oferecendo telefonemas em todo o país por menos de um centavo de dólar por minuto, SMSs por um centavo e nenhuma cobrança mensal -e acumula lucros gordos fazendo isso. Compare-se essa realidade à dos compradores de iPad nos EUA, que pagam US$ 499 pela versão básica, que podem também possuir um computador de mais de US$ 1.000 e um celular inteligente de mais de US$ 100, além de pagar US$ 100 ou mais por mês para conectar esses aparelhos à internet.
Não é a primeira vez em que os EUA e boa parte do mundo se movem por rumos diferentes. Criando para uma rede de banda cada vez mais larga, os inovadores dos EUA tendem a propor aparelhos cada vez mais cheios de detalhes, mais caros e que conferem mais status. Enquanto isso, seus colegas nos países em desenvolvimento estão inovando para encontrar cada vez mais utilizações para telefones celulares básicos e baratos.
Os EUA não compartilham o namoro do mundo com o celular. Um relatório recente do Fórum Econômico Mundial e da escola francesa de administração Insead concluiu que os americanos estão atrás de 71 outros países em seu nível de penetração da telefonia celular, apesar de liderarem em outras áreas de conectividade.
Mas o celular reina do Quênia à Colômbia e à África do Sul -lugares que construíram torres de telefonia celular exatamente para evitar a despesa de lançar as redes conectadas por fios. Em lugares como esses, os celulares estão se tornando a tecnologia verdadeiramente universal.
Segundo a União Internacional de Telecomunicação, uma associação comercial, o número de assinaturas de telefonia celular em todo o mundo deve passar de 5 bilhões neste ano. Isso significará que mais pessoas terão acesso ao celular do que os que têm acesso a banheiros higiênicos, segundo a ONU.
E, pelo fato de alcançar tanta gente, de estar sempre com você, de ser barato e fácil de consertar, o celular abriu uma nova fronteira de inovação global.
A Babajob, em Bangalore (Índia), e a Souktel, nos territórios palestinos, oferecem serviços de busca de empregos via SMS. Na África, o celular está dando origem a um novo paradigma em termos de dinheiro. Cartões tornaram-se o instrumento reinante de pagamento no Ocidente, mas projetos como PesaPal e M- Pesa, no Quênia, estão trabalhando para fazer do celular o instrumento principal das finanças pessoais. Com o M-Pesa, é possível converter dinheiro vivo em dinheiro no celular na quitanda da esquina, e esse dinheiro pode ser transferido a qualquer pessoa com a ajuda de um telefone.
Em muitos lugares, o celular também passou a ocupar lugar central na vida comunitária. Na África, igrejas urbanas gravam sermões com celulares e então os transmitem a vilarejos. No Irã e em Moldova, telefones ajudaram a organizar levantes populares contra governos autoritários. O celular é usado na Índia no monitoramento eleitoral por cidadãos e para transmitir aos eleitores, via SMS, informações sobre a renda e os antecedentes criminais dos candidatos.
Tudo isso sugere a presença de um abismo de inovação entre as sociedades mais ricas e as mais pobres do mundo -não tanto no desenho dos aparelhos quanto no uso que é feito deles, por pessoas que já são consumidoras mas ainda não estão ricas, dotadas de um simples telefone celular e da percepção de que menos é mais.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1904201004.htm

Por que o choque dos prótons importa?

Por DENNIS OVERBYE

Para aqueles que estão com seus conhecimentos em física meio ultrapassados, as notícias sobre o Grande Colisor de Hádrons (LHC, na sigla em inglês), a maior máquina da física no mundo, podem ser intrigantes. Sim, o colisor finalmente promoveu uma colisão de partículas subatômicas, mas por que isso é tão importante? Eis algumas explicações:

Sejamos básicos: o que faz um físico de partículas?
Físicos de partículas têm um só truque, que sempre repetem: esmagar uma coisa contra outra, para ver no que dá.

O que significa dizer que o colisor permitirá que os físicos voltem ao Big Bang? O colisor é uma máquina do tempo?
Os físicos suspeitam que as leis da física evoluíram conforme o universo esfriou de bilhões ou trilhões de graus nos primeiros momentos do Big Bang para as temperaturas superfrígidas de hoje (3° Kelvin) -do mesmo jeito que a água passa de vapor a líquido e a gelo conforme a temperatura diminui. Conforme o universo esfriou, suspeitam os cientistas, tudo se tornou mais complicado. Partículas e forças antes indistinguíveis desenvolveram suas próprias identidades, da mesma forma como o espanhol, o francês e o italiano derivaram do latim original.
Ao fazer partículas subatômicas (prótons) se juntarem numa colisão, os físicos criam pequenas bolas de fogo que revisitam as condições desses tempos primordiais, e veem o que pode ter acontecido então.

O colisor, que fica perto de Genebra, tem 27 km de perímetro. Por que é tão grande?
Einstein nos ensinou que energia e massa são equivalentes. Então, quanto mais energia couber numa bola de fogo, mais massa ela adquire. O colisor tem de ser grande e poderoso o suficiente para acumular enormes quantidades de energia em um próton.
Além disso, quanto mais rápido as partículas viajam, mais difícil fica curvar sua trajetória em um círculo, de modo que elas deem a volta e colidam entre si. O colisor é projetado de forma que os prótons percorram os centros de poderosos eletroímãs do tamanho de troncos de sequoias, o que transforma o trajeto das partículas em círculos, criando uma colisão. Embora os eletroímãs estejam entre os mais poderosos já feitos, eles não ainda não conseguem promover uma curva para os prótons com um raio inferior a 4 km.

O que os físicos esperam ver?
Segundo algumas teorias, itens que jamais foram vistos -por exemplo nomes como gluinos, fotinos, squarks e winos- porque nunca tivemos energia suficiente para criar uma colisão tão grande. Qualquer uma dessas partículas, se elas existirem, pode constituir as nuvens de matéria escura, a qual, segundo os astrônomos, produz a gravidade que mantém as galáxias e outras estruturas cósmicas unidas.
Outro elo perdido da física é uma partícula conhecida como bóson de Higgs, que enche outras partículas de massa ao criar um "melaço cósmico" que as une e lhes confere volume ao viajarem juntas.

Quanta energia é necessária para criar essas bolas de fogo?
No LHC, essa energia é atualmente de 3,5 trilhões de elétrons-volt por próton. É muita energia -é como se um homem de 90 kg inchasse em 300 toneladas.

O que é um elétron-volt?
É a energia que um elétron adquire ao passar do lado positivo para o negativo de uma bateria de um volt. É a unidade básica de energia e massa preferida dos cientistas.

O colisor pode causar um buraco negro capaz de destruir a Terra?
O colisor não fará nada que os raios cósmicos de alta energia já não tenham feito repetidamente na Terra e no resto do universo. Não há evidência de que tais colisões tenham criado buracos negros ou que, se tiverem, os buracos negros tenham causado dano. Segundo até mesmo as variações teóricas mais especulativas a respeito dos buracos negros, o LHC não é tão forte para causar um buraco negro.

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1904201016.htm

O poder das massas

LENTE

Existe um novo elenco de "influentes" na cultura e na política... somos você e eu. Antes, somente a elite, os profissionais e os "insiders" sabiam das coisas. Mas as barreiras tornaram-se muito mais fluidas.
"Hoje, as massas têm um grande acesso à cultura, como nunca antes", disse ao "New York Times" Gabi Asfour, do grupo de design ThreeASFOUR. "E esse acesso é a verdadeira riqueza, de uma maneira que o dinheiro não é. Daqui a dez anos, não haverá uma elite controlando o acesso à cultura, e então as coisas vão mudar incrivelmente depressa."
As coisas já mudaram no exclusivo mundo fashion. Os blogueiros, que são mais rápidos que as revistas para publicar críticas e fotos de desfiles, estão perturbando alguns dos gurus da moda. Durante a Semana da Moda de Nova York, em setembro, Tavi Gevinson, blogueira de 13 anos da Style Rookie, estava sentada na primeira fila dos desfiles de Marc Jacobs e Rodarte. Bryan Boy, um blogueiro das Filipinas, estava sentado perto de Anna Wintour no desfile da D&G em Milão.
Esses infiltradores não estão apenas na primeira fila, mas também atrás das câmeras. Veja D. Sharon Pruitt, 40, que mora em Utah. Depois de passar férias no Havaí, ela enviou suas fotos para o site de compartilhamento de fotos Flickr, como relatou o "Times". A Getty Images percebeu a qualidade de suas fotos e a empresa hoje lhe dá um cheque sempre que editores ou anunciantes compram suas imagens.
A maioria dos amadores se alegra em aceitar qualquer forma de pagamento, tornando mais difícil para os fotógrafos profissionais ganhar a vida. Mas o que é exatamente um profissional hoje em dia, quando todo o mundo é um crítico? Com o Facebook e o Twitter, há um fluxo contínuo de comentários on-line durante programas de TV e eventos como a Olimpíada e o Oscar, em que os espectadores começam conversas com outros que assistem ao mesmo programa.
Essa galeria de críticos permitida pela mídia digital está modificando a televisão. Atualmente, grandes eventos como os Jogos Olímpicos e o Grammy dependem da mídia social para aumentar a audiência e incentivar a discussão. "A internet é nossa amiga, e não inimiga", disse ao "Times" Leslie Moonves, executiva-chefe da CBS Corporation. "As pessoas querem estar ligadas entre si."
O Twitter permite esse tipo de ligação, mesmo com aqueles que podem parecer inatingíveis. Membros do Congresso dos EUA usam Twitter e Facebook para conectar-se com os eleitores, e o primeiro-ministro da Austrália, Kevin Rudd, faz o mesmo, escreveu o "Times".
Shashi Tharoor, membro do Parlamento indiano, causou polêmica com seus tweets questionando as estritas políticas da Índia para conceder vistos turísticos. Tharoor lê quase todos os comentários do Twitter dirigidos a ele e responde pessoalmente a quantos puder, disse seu assessor. Tharoor disse ao "Times": "É uma maneira de envolver as pessoas às quais todos os políticos devem responder em última instância em nosso trabalho".
Muitos da elite poderosa da Índia questionam seu "entusiasmo por uma mídia que diminui a distância entre governadores e governados", escreveu o "Times". Mas, num momento em que o acesso foi virado de ponta-cabeça e está aparentemente democratizado, quem serve a quem hoje é uma noção totalmente nova no culto do amador.
ANITA PATIL


Envie comentários para nytweekly@nytimes.com

http://www1.folha.uol.com.br/fsp/newyorktimes/ny1904201002.htm

A base russa de lançamento

European Pressphoto Agency

Por ANDREW E. KRAMER

Moscou
Mais ou menos na época em que a Apple estava começando a fazer sucesso na Califórnia, Andrei Shtorkh via em primeira mão a abordagem soviética para a alta tecnologia: ele era o vigia da cerca que protegia os cientistas da Sverdlovsk- 45, uma das cidades científicas secretas do país, perdida no meio dos montes Urais.
Essas cidades eram ostensivamente vigiadas contra espiões. Seus muros também mantinham os cientistas do lado de dentro, e todo o resto da União Soviética do lado de fora. Embora muita gente no país estivesse passando fome, os centros científicos eram ilhas de bem-estar, com prateleiras de supermercados cheias de alimentos importados e produtos finos.
A segurança nessas ilhas científicas era tão rígida que até as crianças usavam crachás. Para fazer visitas, parentes precisavam solicitar permissão com meses de antecedência. "Era uma prisão, uma cidade fechada em todos os sentidos", recorda Shtorkh, então um jovem soldado.
Hoje, ele é o divulgador de um improvável novo empreendimento. O governo russo, na esperança de diversificar sua economia, muito voltada para o petróleo, está construindo a primeira nova cidade científica desde o fim da URSS. De modo ainda mais improvável, ela tem como modelo, segundo as autoridades, o Vale do Silício.
A Rússia certamente não é o primeiro país a tentar copiar a ideia do Vale do Silício. Na Malásia, por exemplo, uma floresta foi derrubada para dar lugar a uma cidade da informática chamada Cyberjaya, num autodeclarado esforço para imitar a parte sul da "Bay Area" (na Grande San Francisco, Califórnia). A China tem um aglomerado de alta tecnologia em Tianjin, nos arredores de Pequim, enquanto a França possui o mesmo em Sophia Antipolis, perto de Nice -todas criadas com uma injeção de ajuda governamental, e todas, afinal, bem-sucedidas na tarefa de atrair e fomentar a iniciativa privada.
O local russo, ainda sem nome e localizado nos arredores de Moscou, é uma tentativa de replicar a vibração e o espírito empreendedor do Vale do Silício, a estufa tecnológica dos EUA.
A rica tradição científica da Rússia e o seu mau histórico na conversão de ideias em produtos comercializáveis são incontestes, citados como causas do colapso soviético e da paralisante dependência em relação à mineração e ao petróleo. Não é surpreendente, portanto, que seus líderes olhem com inveja para o Vale do Silício.
"A fundação da cidade da inovação poderia ser uma plataforma de lançamento para o país como um todo", afirmou Viktor Vekselberg, oligarca empresarial russo e codiretor do projeto. Ele chama a cidade de "um teste de modelos empresariais" para a reconstrução das ciências russas na era capitalista.
Uma vez concluído, o local se destinará a incubar ideias científicas usando generosas isenções tributárias e bônus governamentais, até que as novas empresas se tornem lucrativas. Seus apoiadores no governo e na iniciativa privada descrevem-no como um esforço para mesclar a tradição soviética aos modelos ocidentais de estimular empreendimentos tecnológicos em torno de universidades.
Mas céticos veem uma tendência mais profunda da tradição soviética: a de tentar acompanhar o Ocidente exercendo o poder do Estado. "Não devemos esperar que os mesmos mecanismos que funcionam no Vale do Silício funcionem na Rússia", disse Ievgueni Zaytsev, membro do conselho consultivo da AmBar, a associação de empresas russas no verdadeiro Vale do Silício. "O governo estará envolvido, porque é assim que funciona na Rússia."
A nova cidade foi concebida pela chamada Comissão para a Modernização, nas profundezas da burocracia do Kremlin. O governo russo, no entanto, tem uma relação conflituosa com empreendedores e cientistas. Ainda há uma forte tradição de repressão governamental a empresas privadas, com um jeito caprichoso de cumprir as leis tributárias.
O local do ansiado Vale do Silício russo foi escolhido por sua proximidade com outro projeto ambicioso, a escola de administração Skolkovo, que funciona em um edifício futurista financiado com milhões de dólares em doações de oligarcas como Vekselberg.
Embora ideias semelhantes circulem há anos, esta foi aprovada -e abençoada com US$ 200 milhões em verbas públicas- num prazo de um mês, a partir de uma visita feita em janeiro ao Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) por dirigentes do Kremlin, inclusive Vladislav Surkov, o poderoso vice-diretor da administração presidencial. Surkov diz que a nova cidade irá isolar as novas empresas da burocracia que ainda hoje sufoca a economia russa.
A nova cidade se destina a promover as cinco prioridades científicas definidas pelo presidente Dmitri Medvedev -comunicações, biomedicina, espaço, energia nuclear e conservação da energia- e a estimular a fertilização mútua entre as disciplinas.
A Rússia, segundo as autoridades, voltará a ser conhecida por seu talento científico, e não mais por suas minas e poços de petróleo.
Empreendedores da alta tecnologia que permaneceram na Rússia são mais céticos. Ievgueni Kaspersky, fundador da Kaspersky Lab, empresa que produz antivírus, diz torcer pelo sucesso da nova cidade, mas acha que o governo deve restringir o seu papel a oferecer infraestrutura e incentivos fiscais. "A Rússia tem muitos engenheiros de softwares talentosos, mas não muitos negócios bem-sucedidos", disse. "As pessoas ainda têm uma cortina de ferro na sua cabeça."

domingo, 18 de abril de 2010

Enquanto a TV não vem

ELIANE CANTANHÊDE

BRASÍLIA - Serra fez uma aposta arriscada ao empurrar até o último minuto o lançamento de sua candidatura à Presidência, para desespero e/ou irritação de tucanos, demos e do pessoal do PPS. Mas, aparentemente, sua estratégia estava correta. Foi na hora certa.
Depois do susto da oposição em fevereiro, quando Dilma encostou em Serra, com apenas quatro pontos de diferença, a sensação entre os serristas é a de que o pior já passou. Ao menos nesta fase da campanha.
Com tempestades, alagamentos e mortes em São Paulo e a consequente perda de pontos de Serra, Planalto, PT e Dilma imaginavam -na mesma proporção que PSDB e Serra temiam- um cruzamento nas curvas das pesquisas, com a petista avançando para a dianteira e o tucano escorregando para o segundo lugar em março ou abril.
Já imaginou o clima de enterro na festa de Serra se ele tivesse caído do patamar de 30% e ficado atrás da adversária? Mas isso não se concretizou, e o novo Datafolha de certa forma cristaliza a posição dos dois favoritos, que disputam pau a pau.
Mudanças, se houver, só depois da Copa e com o início da TV.
O pessoal da Dilma não deve estar dando pulos de alegria, mas a situação deve estar feia mesmo é numa outra seara: na de Ciro Gomes, que vai sendo sugado para a vaga de lanterninha, enquanto Marina Silva vai caminhando muito devagar, mas devagar e sempre.
Não erra, distingue-se dos opositores com elegância, provoca na hora certa. Deixa um rastro de possibilidades: no final, quem não engole Serra ou Dilma, mas não chegar a se encantar com o adversário direto de um ou da outra, sempre terá essa saída, digamos, honrosa.
Desde o início, parece claro que Marina não é para ganhar, mas para ocupar um vácuo, fazer bonito. E o que está cada vez mais evidente é que Ciro não tem vez: nem no governo, nem na oposição, nem no próprio partido. Quis ser tudo, corre o risco de não ser nada.

elianec@uol.com.br

O Bric e a fraude

CLÓVIS ROSSI

SÃO PAULO - O grupo BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) cobrou pela enésima vez, na cúpula de quinta-feira, em Brasília, a reforma da governança global. Justo, muito justo. Mas deveria começar pela própria sigla.
Trata-se de uma invenção da Goldman Sachs, essa empresa que agora está sendo investigada nos Estados Unidos por suspeita de fraude com um dos incontáveis mecanismos opacos de investimento que os corsários do sistema financeiro criaram nos últimos anos e foram em boa medida responsáveis pela crise global.
Em 2001, um economista do grupo decretou que os quatro países logo seriam potências mundiais. Não estou dizendo que é uma fraude, mas a própria Goldman Sachs, ao se defender agora, produziu um argumento que se aplica perfeitamente ao Bric.
Disse que "certamente" não sabia se o valor dos instrumentos que vendeu "iria subir ou cair".
O acrônimo Bric era também um instrumento vendido pela firma: destinava-se a projetar um futuro radioso para tais países de forma a atrair investimentos.
Tanto no Bric como no CDO (o instrumento usado na suposta fraude) aplica-se idêntico raciocínio: não dá para saber se o valor deles vai subir ou cair.
Não obstante, os governos dos quatro países "compraram" o instrumento e criaram o primeiro grupo de países que não tem origem político-diplomática, mas é fruto de uma invenção de um dos banqueiros de olhos azuis que o presidente de um dos quatro culpou pela crise.
Tudo somado, parece claro que, se é necessário reformular a governança global -e é-, um bom começo seria barrar a possibilidade de a pátria financeira decidir quem deve subir e quem deve cair (a Goldman Sachs está envolvida também na fraude que facilitou à Grécia endividar-se demais).

crossi@uol.com.br